quarta-feira, 27 de maio de 2020

NÃO TENHAIS MEDO! DEUS É POR NÓS! Prudência, Solidariedade e Esperança


- Carta Pastoral da Igreja Católica Romana em Angola e São Tomé.
Dirigida a toda comunidade de irmãos e irmãs faz 4 exortações e reconhecimentos e um chamado à solidariedade:

1- Aos sacerdotes e consagrados em geral recomendamos: não abdiqueis das vossas responsabilidades pastorais, animando a pastoral
2- Às famílias cristãs, e não só, recordamos: sois igrejas domésticas
3- Uma palavra de reconhecimento e encorajamento às autoridades governamentais, com destaque para as autoridades sanitárias dos nossos países.
4- Rezamos, igualmente, pela vossa protecção, vós médicos, enfermeiros, agentes de saúde, forças ~
de segurança, voluntários que, neste período de emergência
>>  (participem) activamente das campanhas nas dioceses e comunidades paroquiais atravéss do Fundo de Solidariedade



leia a nota na íntegra: _________________________________________________________

NOTA PASTORAL CONFERÊNCIA EPISCOPAL DE ANGOLA E SÃO TOMÉ  - CEAST

Amados irmãos e irmãs,
A paz esteja convosco!

1. Angola e S. Tomé e Príncipe, como tantos outros países no mundo vivem, hoje, em Estado de Emergência, decretado pelas competentes autoridades nacionais, devido à pandemia da COVID-19: uma doença extremamente contagiosa, mortífera, que se expande rapidamente; com milhões de infectados no mundo, centenas de milhar de mortos e, para já, sem horizonte temporal em relação à sua duração nem em relação a soluções médicas eficazes.
 
2. É um Estado de Emergência necessário, imprescindível e urgente com todas as suas vigentes medidas de prevenção e que tem provocado muitos constrangimentos na vida social e eclesial. Paralisou, em grande medida, a vida em vários domínios: convívio social, trabalho e produtividade, fechamento de escolas de todos os níveis; mercado informal, de que vive a maioria da população, fortemente afectado; pobreza e fome que se agravam, de dia para dia; agravamento de outras doenças endémicas já presentes na sociedade antes desta nova e imprevisível doença; violência que cresce, incerteza, dúvidas e perturbações que se levantam nos corações em relação ao futuro, começando já a afectar o próprio equilíbrio mental das pessoas confinadas, criando ainda mais conflitos e frustrações. 

3. A nível da pastoral da Igreja destacamos, sobretudo, duas das mais graves consequências do isolamento social: a suspensão das celebrações dos sacramentos em geral, com destaque para a celebração da Eucaristia com a presença física dos fiéis; a suspensão da catequese e de outras actividades pastorais vitais dos vários grupos de apostolado laical.

4. «Nós sabemos que Deus concorre em tudo para o bem dos que O amam» (Rom. 8, 28). Felizmente, à luz da nossa fé, não vemos apenas coisas negativas nos acontecimentos históricos mas, nos sinais dos tempos, vemos Deus, o Senhor da história, a agir. Foram precisos planos de contingência e de emergência a nível mundial para fazer face a este flagelo global. Mesmo as nações mais fortes desde o ponto de vista do poder científico-técnico e económico-financeiro, que pensavam que estariam, porventura, imunes a qualquer epidemia, não estão a ser poupadas. Podemos dizer que o vírus abateu as barreiras geográficas, as condições sociais, económicas, hierárquicas: ricos e pobres, grandes e pequenos, letrados ou iletrados, ninguém goza de imunidade. Este acontecimento obrigou-nos a sentirmo-nos como parte de uma humanidade comum, na fragilidade. Oxalá pudéssemos sê-lo na fraternidade e na solidariedade.

5. Tendo presente as actualizações constantes sobre o evoluir da doença, sobretudo em países com mais unidades sanitárias e maior poder organizativo e económico-financeiro, aumenta o nosso receio perante a precariedade das condições de vida dos nossos povos, a insuficiência de unidades sanitárias capazes de responder à demanda em caso de uma situação que fique fora de controle, a precariedade das nossas habitações/casas e o número de pessoas por família, para que se garanta o sucesso em caso de quarentena domiciliar.        
    
6. Como pastores, preocupa-nos ainda a falta de colaboração com as autoridades sanitárias no respeito do cumprimento rigoroso das medidas de prevenção por parte de vários cidadãos; a desobediência às normas estabelecidas; a situação de desespero por causa da miséria, que força muitos a sair de casa para procurar alimentos e água potável para a sua subsistência e, por isso, a não poder “ficar em casa” como exigido; a violação da cerca sanitária mesmo perante a inquietante existência de doentes assintomáticos da COVID-19; a entrada na época do cacimbo, um tempo mais frio e mais propício a várias gripes que bem conhecemos; o uso e abuso desproporcional da força por parte de alguns agentes de defesa, protecção e segurança que, em várias ocasiões, também são agredidos no exercício do cumprimento da sua missão de proteger a vida das populações; os eventuais desvios e a idolatria ao “deus-dinheiro”, por parte de gente que está a fazer negócio e a enriquecer, indevidamente, com a pandemia, vendendo a preços exorbitantes os bens de primeira necessidade e os equipamentos de biossegurança que, de resto, são insuficientes para a demanda; a distribuição de bens da cesta básica às famílias e pessoas mais vulneráveis nem sempre isenta de discriminação e aproveitamentos da situação com intenções inconfessas; os falsos profetas e os charlatães de ocasião que vendem curas fáceis e que se aproveitam da ignorância ou negligência de muitos em relação ao perigo real que representa a COVID19. Que as autoridades competentes estejam atentas e punam os prevaricadores. 

7. Perante este quadro cheio de sombras, mas também com alguns sinais de esperança, caso se respeitem as medidas contidas nos decretos presidenciais, apelamos para um compromisso mais público da Igreja para com os mais necessitados, tornando ainda mais forte o nosso sistema de solidariedade.

7.1. Aos sacerdotes e consagrados em geral recomendamos: não abdiqueis das vossas responsabilidades pastorais, animando a pastoral caritativa e os valores evangélicos da solidariedade, da compaixão, da preocupação pela vida própria e alheia; vendo em cada pobre e necessitado, o próprio Jesus que, continuamente, nos recorda ser feito a Ele o que fizermos aos nossos irmãos mais pequeninos (cfr. Mt. 25, 40). Além disso, vos exortamos a aproveitar este momento para explorar, com criatividade, novas formas de evangelização e de animação pastoral. O confinamento social oferece-nos imensas possibilidades de viver de forma nova o ministério sacerdotal e a missão da vida consagrada na Igreja.  
7.2. Às famílias cristãs, e não só, recordamos: sois igrejas domésticas, lugares da prática das virtudes cristãs, com particular atenção à protecção de menores, vossos filhos; espaços privilegiados de oração em família, de meditação da Palavra de Deus e do ensinamento da Igreja, traduzidos na salvaguarda da comunhão e unidade familiares e prática da caridade, no perdão e na compreensão das fraquezas e fragilidades, coisas que talvez não valorizáveis tanto antes do isolamento social. Pode ser também um tempo privilegiado para a descoberta de dons e qualidades que nunca imaginastes existirem em certos membros da vossa família. Procedei em tudo como pessoas chamadas a ser portadoras daquela esperança que não desilude, porque não engana. Descobri o valor e a força da comunhão espiritual, nestas circunstâncias especiais em que não podeis participar fisicamente das missas. O isolamento social vos ajude a melhor descobrir e valorizar a família cristã. De facto, a pandemia e o confinamento estão a ajudar-nos a redescobrir a centralidade da família como uma instituição fundamental, onde somos acolhidos e amados incondicionalmente. Hoje em dia ficamos confinados em família. Na família, sentimo-nos protegidos e sustentados. Mesmo reconhecendo, infelizmente, a existência de alguns episódios de violência doméstica, os crentes estão a experimentar o valor da família como lar e uma verdadeira Igreja doméstica. Damos graças a Deus pelo dom das famílias e rezamos para que sejam cada vez mais escolas de fé e de vida. 
7.3. Uma palavra de reconhecimento e encorajamento às autoridades governamentais, com destaque para as autoridades sanitárias dos nossos países. Encorajamo-las a socorrerem a todos indistintamente, sem outros fins que não sejam o bem e a saúde pública dos cidadãos, buscando soluções sociais e económicas com patriotismo, clarividência, espírito de solidariedade e sentido de Estado. Entretanto, o Estado de Emergência está a revelar a relevância das fragilidades do nosso sistema de governação: carências enormes no acesso à água potável e à energia eléctrica pela população em geral; falta de saneamento básico e estruturas eficazes de saúde; pobreza nos meios da sustentabilidade alimentar, com a vida de grande parte da população a depender de uma agricultura de subsistência e do instável comércio informal de pequeno vulto. Louvamos o esforço das nossas autoridades para acudir às graves necessidades do momento e pensamos ser necessário, no futuro, tirar lições. As deficiências que hoje notamos no sistema de saúde, a falta de água para todos e outras deverão figurar entre as prioridades, numa espécie de “estado de emergência” permanente, embora sem confinamento social. É missão nossa, como Igreja, rezar por vós e animar e agradecer os vossos esforços nesta luta contra a pandemia.
7.4. Rezamos, igualmente, pela vossa protecção, vós médicos, enfermeiros, agentes de saúde, forças de segurança, voluntários que, neste período de emergência, estais na vanguarda arriscando a própria vida para salvar outras vidas. Pedimos que vos distingais pela atenção a cada doente, independentemente da sua condição social e da situação clínica que apresente. Pedimos, igualmente, que não baixeis a guarda em relação às endemias habitualmente presentes na nossa sociedade (a malária, por exemplo), pois elas continuam a fazer muitas vítimas entre nós e devem ser combatidas com igual rigor. Que o Senhor acompanhe a vossa fadiga heróica e vos dê força, bondade e saúde. Rezamos ainda por vós, homens e mulheres de ciência para que não desanimeis na procura de soluções acertadas para vencer este vírus. A nossa oração não vos deixa de fora, a vós, jornalistas dos vários órgãos de comunicação social que, na presente situação de pandemia, tudo tendes feito para informar, sensibilizar, educar e chamar a atenção para as várias situações que clamam por socorro, alertando a quem de direito para que encontre as devidas soluções dos problemas que se apresentam.
  
8. Estamos no Tempo Pascal, tempo da vitória definitiva da vida sobre a morte e em que Jesus, o Ressuscitado, promete o envio do Espírito Santo Paráclito, o Espírito da verdade, presente e actuante no seio e vida da Igreja e garante da sua missão como seu principal protagonista. O Tempo Pascal é propício para o reforço da nossa fé e confiança em Deus, certos de que o amor de Deus é mais forte e far-nos-á sair vencedores de qualquer mal que nos possa atingir.
9. A situação da pandemia que estamos a viver converta-se, então, em oportunidade para darmos razão da nossa esperança e da diferença que um cristão deve fazer, especialmente, nos momentos mais difíceis da história humana. Vivamos em espírito de solidariedade e fraternidade a nossa proximidade a tantas situações de pobreza e mesmo de miséria, agravadas pelo Estado de Emergência. Participemos, activamente, em todas as campanhas já em curso em várias dioceses junto das comunidades paroquiais, tornando mais eficiente o “Fundo de solidariedade”, contando com os leigos financeiramente mais capazes; colaboremos na recolha e distribuição de víveres, e da contribuição financeira a levar às famílias mais carenciadas em todo o território nacional. Cuidando cada um de si, dos seus, dos vizinhos, estará a cuidar e a proteger a inteira humanidade. A responsabilidade nesta luta é de todos, cada um segundo a sua condição e dos meios de que dispõe. Façamos tudo isto em colaboração com outras confissões religiosas e com os nossos governantes. 
10. Neste tempo de provação que o Senhor nos concede, encorajamos a firmeza na fé, a conversão profunda do nosso coração, a constância na oração pessoal e em família, destacando as orações de súplicas acompanhadas de práticas de penitência, certos de que a oração tem um poder muito grande pois, segundo a promessa de Jesus, tudo o que pedirmos ao Pai em Seu nome, não nos será negado. Exortamos também à perseverança no serviço, feito sempre com amor e dedicação. Peçamos a Deus, nosso Pai, com confiança filial, o fim desta terrível pandemia para que a vida possa retomar, com serenidade, o seu curso normal. 
11. Deus é por nós (cfr. Rom. 8, 31). «Quem nos separará do amor de Cristo? A tribulação, a angústia, a perseguição, a fome, a nudez, o perigo ou a espada? Mas, em tudo isto, somos nós mais que vencedores por Aquele que nos amou» (Rom. 8, 35.37). Que nada nem ninguém nos separe do amor de Cristo (cfr. Rom. 8, 35)! 
12. Nesta hora de provação, confiamos e recomendamos os nossos países e suas populações à poderosa intercessão de Maria, Mãe da Igreja, Consoladora dos aflitos e Saúde dos enfermos. 
                                      
Dado em Luanda, aos 22 dias do mês de Maio do ano de 2020
 † Filomeno do Nascimento Vieira Dias Arcebispo de Luanda e presidente da CEAST

sábado, 23 de maio de 2020

COVID 19 POLÊMICA: já é hora de reabrir as igrejas em Angola?



- Igrejas devem reabrir porque “Deus é um bem de primeira necessidade”.
Dois prelados cristãos apelaram ao governo angolano para reabrir os locais de culto religioso garantindo que as igrejas têm a capacidade de instituir medidas higiénicas e de segurança no combate ao coronavírus.



O Reverendo Kanasidibo Aleluya Charles Sebastião Janus e o Padre Daniel Malamba disseram no programa “Angola Fala Só” que as igrejas devem ser reabertas pois cumprem uma necessidade espiritual e social das populações.

“A fé e Deus não são um bem de primeira necessidade?” interrogou o Padre Malamba que subilnhou depois que “Deus não é um marginal, a fé não é um acto marginal”.
“Não sei qual é o critério (que utilizaram para encerrar as igrejas)”, disse o prelado católico.
“Não confiam na nossa capacidade de organização mas duvido que os mercados sejam melhor organizados do que nós”, acrescentou.

Já o Reverendo Aleluya disse que as igrejas poderiam organizar-se facilmente para limitar o número de crentes presentes e fez notar também que as igrejas podem ter os meios de higiene previstos no combate ao coronavírus.

“Há muito mais população num mercado do que numa igreja”, disse afirmando que as igrejas podem organizar diversos cultos diários com lugares reservados.
“Como é que se pode pensar que há mais risco nas igrejas do que nos mercados?” interrogou.
O Reverendo Aleluya disse que um grupo de dirigentes religiosos tinha pedido uma audiência com o presidente da república para discutir a questão mas não tinha obtido qualquer resposta.



Ambos concordaram que o encerramento das igrejas teve um grande impacto.

“Muitas igrejas vivem do dia a dia das contribuições dos fiéis”, disse o Padre Malamba que sublinhou que houve também um impacto “nas relações humanas entre as pessoas”, recordando a este respeito que há pessoas idosas cuja ida à igreja é também o único local de socialização.

O Reverendo Aleluya disse que “a igreja é constituída pelas pessoas e tem identidade social”.
“A Igreja foi afectada e também os cristãos”, disse afirmando que a Igreja e o estado deveriam “trabalhar de comum acordo”.

Tanto o Reverendo Aleluya como o Padre Malamba alertaram para os “falsos profetas” que se dizem capazes de produzir curas da Covid-19 e outras doenças.

“Isso vem de igrejas doentes”, disse o Reverendo Aleluya para quem “os verdadeiros cristãos não podem clamar por milagres” algo que está aquém da compreensão humana.

Já o Padre Malamba disse acreditar em milagres “mas não na propaganda milagrosa”.
“Eu acredito que há gente que se salva por milagre por fé em Deus mas há profetas falsos”, disse o Padre Malamba, "na Bíblia Jesus Cristo quando fez milagres frisou sempre que foi a fé que salvou", continuou.
O Padre Malamba avisou contra aqueles que usam a liberdade religiosa para “a libertinagem” e avisou contra os “falsos profetas”.

“Há muita gente que vai para o inferno de Bíblia na mão”.

"A polícia mata mais que o coronavírus"

Os dois prelados insurgiram-se contra a brutalidade policial na aplicação do Estado de Emergência.
O Reverendo Aleluya disse ter ele próprio testemunhado a polícia prender pastores religiosos.
“O pastores deviam ser um colaborador da polícia na educação moral e cívica”, mas “o poder está com o polícia que mesmo que tenha outras ordens faz outras coisas no terreno”.

Já o Padre Malamba disse que se assiste em Angola a uma degradação das relações entre a polícia e população: “Em Angola há mais divórcio e menos casamento entre a população e a polícia, há falta de uma consciência, e ética moral, cidadania e co-responsabilidade. Chegamos ao ponto de ter uma mamã sem arma a enfrentar um polícia armado”.

“A polícia e o estado não se faz respeitar e há um total desrespeito pelas autoridades”, acrescentou.

Para o Padre Malamba a polícia tem que ser treinada “a conviver com situações ‘‘stressantes’” e só assim poderá ganhar o respeito das populações.
Para o reverendo Aleluya a "polícia já matou mais do que o próprio coronavírus".

23 de maio de 2020

https://noticias.sapo.ao/sociedade/artigos/igrejas-devem-reabrir-porque-deus-e-um-bem-de-primeira-necessidade

“TIVE FOME E ME DESTE DE COMER” – RESPOSTAS PASTORAIS À PANDEMIA





ANGOLA - REFUGIADOS E CRIANÇAS ENTRE OS QUE SOFREM COM A FOME

O coordenador geral dos refugiados em Angola, Mussenguele Kopele, anunciou hoje que mais de 100 famílias da comunidade estão com dificuldades para se alimentar por conta do confinamento originado pela Covid-19, pedindo ajuda para acudir os afectados.
Segundo o responsável, os mais vulneráveis nesta condição estão os refugiados com doenças crónicas, crianças órfãs bem como muitos requerentes de asilo e refugiados com documentos expirados.
quarta-feira, 06 maio 2020
Comentário da Revd. Dra. Virgínia dos Santos N´kutxi

A Conferência Anual do Oeste de Angola da Igreja Metodista Unida colocou-se em acção, acudindo aos necessitados neste período de confinamento.
A semana que findou a direção da Igreja Metodista esteve engajada na distribuição de mais de setecentos quites de cestas básicas às famílias carentes da Igreja e da sociedade em geral.


A Igreja está se colocando ao serviço do povo. Num primeiro momento para manifestar seu amor ao próximo. Amor este pregado, ensinado e vivido por Jesus.
Em segundo lugar, sentindo a dor do oprimido social e levando a libertação através do alimento físico. O pão que também Jesus alimentou as multidões que o seguiam para ouvir o evangelho. Sendo Ele, O Pão da Vida.
Num terceiro momento, Ela está colocando em execução um dos fundamentos de sua doutrina fundadora; quanto a importância da acção social, prática integrante na sua doutrina social, que se afigura fundamental na vida da Igreja Metodista no mundo. Para o João Wesley, o exercício da solidariedade e o serviço ao próximo é a forma mais elevada da prática da fé.
E num quarto momento, não menos importante que os três anteriores: Com estas ações, Ela pretende seguir as pisadas de Cristo; que durante o seu ministério deu de comer aos que tinham fome e que conclama a fazer o mesmo, sublinhando que quando se der de comer a quem tenha fome, é a Ele que alimentamos.
Nestes actos de solidariedade, encontra-se a marca do Divino que tanto se busca nas celebrações.
O Divino está justamente no rosto sofrido de quem busca por pão, por justiça por aceitação na luta diária em busca da sobrevivência. Portanto, Igreja que não vive a sua fé na prática da solidariedade e no encontro dos desfavorecidos, não está defendendo a vida, logo, não está pregando o evangelho. Porque o evangelho é vida, o evangelho é Jesus Cristo e Jesus é vida.


quinta-feira, 21 de maio de 2020

A MISSÃO DA IGREJA EM TEMPOS DE PANDEMIA


Encontro via ZOOM  nesta 6a.feira, 22 de maio
03:00 PM Maputo
02:00 PM Luanda
10:00 AM Brasil


NEM LIMÃO, NEM FEIJÕES: SEM MILAGRES CONTRA A COVID-19


Ministério Público e polícia no Brasil investigam “receitas infalíveis” contra o vírus

- Um pastor evangélico da Praia Grande, no litoral de São Paulo, anunciou nas redes uma receita infalível contra a Covid-19. A fórmula mágica, segundo Waldeir de Oliveira, líder da Igreja Assembleia de Deus Ministério da Missão, teria vindo de Israel: um  gargarejo com água morna, bicarbonato de sódio e limão. “Eu vou lhe ensinar a fazer. São três ingredientes, é muito fácil. Pegue um limão, meio copo de água morna e bicarbonato de sódio. Pegue uma colher de chá de bicarbonato, ponha no copo de água e mexa. Depois, pegue meia banda de limão e esprema com o bicarbonato no copo. E veja a reação”, ensinou Waldeir, em um vídeo que viralizou nas redes sociais no início do mês. 

“É para gargarejar, não beber. O coronavírus fica quatro dias na garganta. Com o gargarejo antes de dormir, todos os dias, você não pega o coronavírus”, garantiu o pastor. Na receita, o limão pode ser substituído por vinagre de maçã, explicou. “Se tiver alguém com garganta inflamada, multiplique esse vídeo para todo o mundo no Brasil”, pediu o líder evangélico. Waldeir, com 7,5 mil seguidores no Facebook, disse que sua igreja fez pregações por 23 horas seguidas nos últimos dias. Sua denominação é uma dissidência da Assembleia de Deus.

A fórmula salvadora para curar a Covid-19 teria sido passada por um judeu, segundo o pastor, ao seu irmão, residente nos Estados Unidos há 40 anos. “Os judeus mandaram essa receita para todos os cidadãos de Israel. E a mídia não fala de Israel. Lá, o coronavírus não está reagindo. Desde que começou a epidemia, lá ele não se propagou”, afirmou Waldeir.

Até esta quarta-feira (20), foram registrados em território israelense 16.659 casos de coronavírus e 278 mortes. A Embaixada de Israel, em Brasília, informou não ter conhecimento de qualquer orientação a seus cidadãos sobre supostas fórmulas para prevenir e combater a Covid-19. Sobre a tal receita com água, bicarbonato e limão, o Ministério da Saúde no Brasil também esclareceu não existir qualquer medicamento ou substância capaz de curar a doença. Infectologistas consideraram uma “bobagem” e “sem sentido” a sugestão do pastor. Após a repercussão de seu vídeo, o pastor Waldeir o retirou das redes sociais. Procurado na segunda-feira (18), minimizou o episódio. “Foi só um vídeo que fizemos para orientar a higiene bucal.” E evitou mais comentários: “não tenho mais nada o que falar.”


O Ministério Público Federal e o Ministério Público Estadual em São Paulo começaram a receber denúncias sobre supostas curas da Covid-19 propagadas por líderes religiosos na internet. O caso do pastor Waldeir, no entanto, não foi alvo de procedimentos – ao menos até o momento –  por parte do Ministério Público Estadual ou Federal.

Oprimeiro caso a chamar a atenção de procuradores e promotores foi o do pastor Valdemiro Santiago, da Igreja Mundial do Poder de Deus, que estimulou os fiéis a plantarem sementes de feijão adquiridas em sua instituição. Disse que elas teriam supostos poderes para curar o coronavírus. Os fiéis eram estimulados a pagar entre 100 e 1 mil reais. Valdemiro divulgou que as sementes poderiam “auxiliar na crise epidêmica atual, fazendo alusão e ligação com suposto caso concreto de pessoa que teria se curado de doença causada pelo novo coronavírus”, constatou o procurador Pedro de Oliveira Machado, da Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão em São Paulo.

O Ministério Público Federal solicitou ao Google no Brasil, responsável pela plataforma de vídeos YouTube, a retirada dos vídeos de Valdemiro. O Google atendeu ao pedido. O MPF também enviou notícia-crime ao Ministério Público Estadual para apurar possível prática de estelionato por parte do apóstolo Valdemiro. Um pedido de investigação começou na Procuradoria da República em Recife. Foi remetido depois para São Paulo, por ser o local da sede da igreja, e ao MP estadual, por tratar-se de responsabilidade individual – no caso, do apóstolo Valdemiro Santiago.

Nos vídeos, o líder da Igreja Mundial não falou explicitamente em pagamento. Mas disse que a igreja enviaria as sementes pelos Correios e os fiéis fariam “o propósito” de 1 mil, 500 ou 100 reais, para ter a bênção. Para a Procuradoria, ficou claro o uso de influência religiosa e da mística da religião para obter vantagem pessoal ou benefício para a Igreja Mundial do Poder de Deus, “pois não há evidência conhecida de cura da Covid-19 por meio de alguma divindade nem por ingestão ou plantação de feijões mágicos”. O Ministério Público Federal, em nota, informou não ter intenção de restringir a liberdade religiosa nem criminalizar a arrecadação de ofertas de fiéis, mas também não poderia permitir que “indivíduos inescrupulosos ludibriem pessoas vulneráveis e firam a fé pública”. A Igreja Mundial negou a venda de feijões para curar a Covid-19. Disse que “toda cura vem de Deus” e a semente seria uma “figura de linguagem”. O valor da suposta venda não existe, segundo a igreja, por ser a oferta espontânea, “a qual é dada de acordo com a condição e manifestação de vontade de cada fiel”.

No início de março, a Igreja Catedral Global do Espírito Santo,  conhecida também como "Casa dos Milagres", em Porto Alegre (RS), causou polêmica ao divulgar o anúncio de um culto chamado "O Poder de Deus contra o Coronavírus". A igreja prometia imunização contra a Covid-19 por meio de um "óleo consagrado". A Polícia Civil abriu inquérito e está investigando o caso. O Ministério Público do Rio Grande do Sul considerou o caso passível de enquadramento em crime de "charlatanismo ou curandeirismo". O MP também abriu um inquérito civil e notificou a igreja solicitando explicações. O pastor Silvio Ribeiro, responsável pela igreja, foi ouvido pelo MP, se retratou e comprometeu-se a não repetir o discurso. O inquérito do MP então foi arquivado.

No mesmo mês, durante um culto, o missionário R.R. Soares, da Igreja Internacional da Graça, disse usar “a autoridade de Deus” para mandar o coronavírus ao inferno. “Mal, é uma ordem! Pegue tudo o que é seu agora e vá embora! Eu exijo! Desapareça! Solte essa vida agora. Eu estou mandando! Coronavírus, vá para o inferno. Largue essa pessoa agora […] Em nome de Jesus Cristo, vá embora! Acabou! A bênção chegou e todo mal está desfeito em nome de Jesus Cristo!”, propôs R.R.

Opastor David Mesquiati, presidente da Fraternidade Teológica Latino Americana e da Rede  Latino Americana de Estudos Pentecostais, explica que recorrer à religião em busca de um milagre é um caminho normal e natural em várias religiões e no cristianismo em geral. “O católico, o luterano e os pentecostais oram pela cura. Buscar a cura milagrosa é uma característica que todas as religiões possuem. A perspectiva de cura por meio de uma intervenção divina é esperada. O problema é que alguns transformam isso num produto”, observou Mesquiati, pastor da Igreja Assembleia de Deus em Vitória (ES) e professor de Teologia e Ciências das Religiões na Faculdade Unida de Vitória.

Crítico em relação às atitudes de alguns colegas, Mesquiati ressaltou ser contrário a promessas e garantias de cura por meio de um determinado procedimento ou em razão de o fiel ser membro da igreja A ou B. “Isso beira o charlatanismo. E não é isso o que se espera. Uma coisa é o discurso de esperança, orar e esperar que haja uma intervenção divina, um possível milagre. Isso é uma expectativa justa. Outra coisa é dar garantias de que isso vá acontecer.” 

Há diferenças, segundo ele, no caso do bicarbonato com limão e na venda de sementes de feijão. “Tem dois tipos de abordagem aí. Tem um que está tentando usufruir ganhos com uma suposta cura [caso do feijão], e isso deve ser analisado. Outra coisa é quando o pastor propõe um caminho de cura usando um chá ou bicarbonato, ele passa do limite da ingenuidade.” Para Mesquiati, haveria outras razões. “Pode ter uma maldade implícita, que é o negacionismo da doença, da ciência. Isso é muito ruim, inclusive porque ultrapassa as questões da religião, da esfera do que compete ao líder religioso, ao prescrever tratamentos. É caso de falta de discernimento sobre as áreas específicas de cada um. Não se deve avançar na área um do outro, principalmente numa questão delicada e importante como a saúde”, critica. “Isso pode estar no limite tênue entre a ingenuidade e a maldade.”

O pastor também vê uma possível motivação política. “Tem o negacionismo da atividade médica, da ciência. Uma cegueira provocada por ideologia política. O sujeito fica cego lá na frente e pode manipular a realidade. Pode achar que estão prejudicando o seu político preferido e aí recorre a mecanismos não comprovados. Passa a dizer que a ciência não vale nada.”

O caso de venda de produtos é ainda mais grave, na avaliação de Mesquiati. “Aí é charlatanismo puro. Ela aflora nos tempos de crise. E muitos se aproveitam dela. O primeiro caso é mais velado, e esse é escancarado.” Pastor há 17 anos, o líder religioso da Assembleia de Deus diz lamentar o caminho da negação da ciência seguido por muitos colegas, seja de esquerda ou de direita, segundo ele. “O pior é que a massa, o grosso dos fiéis, não vê comportamento inadequado aí, não. Se você for conversar com qualquer evangélico, ele se sente representado nessa fala. E, entre os católicos, também”, lamentou.

https://piaui.folha.uol.com.br/nem-limao-nem-feijoes-sem-milagres-contra-covid-19/
GILBERTO NASCIMENTO
Jornalista, é autor de “O Reino – a história de Edir Macedo e uma radiografia da Igreja Universal” (384 pgs, Companhia das Letras)

COVID 19 em África: o pior já passou ou ainda está por vir?




- Coronavírus: o que está por trás da aparente resistência da África à pandemia

Desde que o primeiro caso na África foi noticiado, em 14 de fevereiro, a mídia mundial, especialistas, governos e até a Organização Mundial da Saúde (OMS) previram uma "catástrofe" no continente.
Embora os especialistas alertem que ainda é muito cedo para cantar vitória, o "desastre iminente" previsto por John Nkengasong, diretor do Centro de Controle e Prevenção de Doenças da África, ainda não ocorreu.
Enquanto a Europa responde por mais de 1,5 milhão de casos confirmados, os Estados Unidos ultrapassam 1,3 milhão e a América Latina está perto de 250 mil, o continente africano tem até agora 55 mil infecções.
Seu número de mortes relativamente baixo é ainda mais surpreendente: até 8 de maio, essa região do mundo registrava pouco mais de 2 mil óbitos, muito menos do que outros continentes ou mesmo se comparado a uma cidade como Nova York, que já passou de 20 mil mortes.
Esses números são mais impressionantes diante do fato de a África ser o segundo continente mais populoso do mundo, com 1,2 bilhão de habitantes.

DIVERSIDADE DE ABORDAGENS

Os países africanos mais afetados, até 11 de maio, são a África do Sul, com 10.015 casos, o Egito com 9.400, o Marrocos com 6.063 e a Argélia com 5.723. Juntos, eles representam quase 50% de todas as infecções na África.
Alguns especialistas argumentam que a explicação para a suposta exceção que o continente se tornou é que os sistemas de saúde locais não conseguem fazer testes suficientes para detectar mais casos de covid-19, principalmente devido à falta de recursos.
Mas outros asseguram que outros fatores também influenciam esta situação. Anne Soy, editora adjunta da BBC na África, explica que há realmente uma situação complexa em um continente com 53 países que confirmaram a presença do vírus e adotaram estratégias diferentes para lidar com ele.
"Há aqueles que tomaram medidas drásticas desde o início e onde o número de casos continua a aumentar, no entanto, existem outros que ainda estão em negação e não estão implementando medidas para impedir a propagação da doença, como a Tanzânia", diz Soy.
O presidente da Tanzânia, John Magufuli, é um dos poucos líderes mundiais que continua a minimizar a gravidade do vírus. Na semana passada, ele questionou a precisão dos testes para covid-19 e demitiu o chefe do laboratório nacional de saúde encarregado de realizá-los, denunciando uma "trapaça".
Magufuli já havia pedido aos tanzanianos que rezassem para que o coronavírus desaparecesse, e seu governo não oferece atualizações diárias sobre o progresso do surto.

REAÇÕES RÁPIDAS DOS PAÍSES AFRICANOS
Apesar de algumas exceções, a maioria dos países africanos tomou medidas "mais rapidamente do que o resto do mundo", observa Soy.
"Ruanda foi um dos primeiros a implementar o confinamento quando tinham menos de 20 casos confirmados. Eles fecharam a fronteira e interromperam os voos internacionais", afirmou.
A África do Sul, o país do continente que até agora reportou o maior número de infectados, impôs desde 27 de março um dos mais rígidos regimes de isolamento do mundo, com proibição de todos os voos comerciais e até da venda de bebidas e cigarros.
Mas, principalmente devido à queda na atividade econômica da África do Sul, suas autoridades de saúde começaram a relaxar algumas medidas na semana passada.

EXPERIÊNCIA COM EPIDEMIAS
Embora a pandemia de coronavírus seja a mais grave crise de saúde de nossa geração, está longe de ser a primeira. Especialmente na África, um continente que enfrentou severas epidemias de malária, tuberculose, cólera, HIV e ebola.
Todas essas doenças tiraram vidas, mas também forçaram a comunidade científica e médica africana a inovar.
"A população africana está acostumada a reagir rapidamente, a recorrer a voluntários no meio rural. Acho que isso lhes permitiu circular informações sobre medidas de prevenção e aplicá-las a tempo", diz Karl Blanchet, especialista em saúde global e emergências sanitárias no Centro de Genebra para Educação e Pesquisa em Ação Humanitária (Cerah).
A recente epidemia de ebola que atingiu a África Ocidental, com maior intensidade entre 2014 e 2016, causou estragos em países como Guiné, Libéria e Serra Leoa e deixou mais de 11 mil mortos.

Embora a OMS tenha declarado o fim da emergência sanitária na região em março de 2016, as autoridades ainda estão em alerta em alguns dos países mais afetados pelo surto devido ao aparecimento de casos isolados.
"O ebola era um problema que ainda existia quando a pandemia da covid-19 foi declarada. Isso significa que alguns países africanos já tinham infraestrutura de detecção nos aeroportos. Autoridades de saúde pública e termômetros sem contato já estavam posicionados nas portas de entrada", explica Soy.
O surto de ebola também ensinou à África a importância de detectar casos rapidamente, tratar os pacientes confirmados e isolar comunidades, diz a jornalista da BBC.
"Por causa daquela epidemia, as pessoas até pararam de apertar as mãos na África Ocidental e na República Democrática do Congo. Elas se conscientizaram de que isso é importante", acrescenta.

UM CONTINENTE MENOS GLOBALIZADO
A baixa circulação entre os países da África e o resto do mundo pode ser outro fator que contribuiu para a situação atual
Frederique Jacquerioz, especialista africano em saúde pública da equipe de medicina tropical e humanitária do Hospital Universitário de Genebra, na Suíça, estima que outro fator que pode explicar a resistência da África à pandemia é a baixa circulação existente entre os países do continente e o resto do mundo.
"Os primeiros casos confirmados na África foram jovens, africanos ou europeus, que viajaram, retornaram à África e trouxeram o vírus com eles", diz o médico.
"Em um mundo globalizado, esse foi um dos fatores que alimentou a disseminação do vírus na Europa, onde grupos de jovens passam fins de semana em diferentes cidades. Talvez na África, nesse sentido, haja menos mobilidade entre os países."
Essa hipótese é apoiada por vários especialistas. Blanchet, da Cerah, dá como exemplo três dos países que até agora foram os mais afetados pelo vírus: África do Sul, Egito e Argélia.
"Eles são os países com maior número de ligações aéreas com a China. A exceção é a Etiópia, que apesar de não estar nesse grupo, tem uma conexão direta com o país asiático. Mas ainda não foi afetada pela pandemia. Isso é algo que não pode ser explicado", diz ele.

EXISTE UM FATOR DEMOGRÁFICO?
A África é o continente com a população mais jovem
A pirâmide demográfica africana é outro elemento que pode ter ajudado o número de mortos na região a não ser maior: a África é o continente com a população mais jovem do mundo.
Blanchet acredita nesta hipótese e destaca que "a idade média na África é de 19,7 anos, enquanto na Europa é de cerca de 40 anos, por exemplo".
Embora Anne Soy reconheça que esse poderia ser um dos fatores, ela alerta que ainda não há estudos científicos para apoiar essa teoria.
"Pode ser uma das vantagens da África, mas, ao mesmo tempo, você também tem uma grande população de crianças desnutridas, com um sistema imunológico mais fraco, do que no resto da população mundial, o que as torna mais vulneráveis. Isso significa que teríamos que ver mais crianças africanas afetadas do que no restante do planeta?", questiona a jornalista.

OS RISCOS DO CONTINENTE
A OMS alerta que o coronavírus pode matar cerca de 190 mil pessoas na África nos próximos 12 meses
Na sexta-feira, a OMS alertou que o coronavírus na África poderia "arder lentamente" por vários anos e matar cerca de 190 mil pessoas nos próximos 12 meses.
Esse aviso veio um mês depois de a agência estimar que o surto causaria 10 milhões de infecções no continente dentro de seis meses.
O mesmo relatório de sexta-feira prevê que entre 29 milhões e 44 milhões de pessoas poderão ser infectadas no primeiro ano da pandemia de covid-19 se as medidas de contenção no continente falharem.

Vários analistas enfatizam que o impacto da pandemia realmente dependerá das ações que os governos tomarem.
O diretor da Comissão Econômica das Nações Unidas para a África, Stephen Karingi, disse ao jornal britânico The Guardian que é preciso reconhecer que as autoridades africanas estão "fazendo muito" para conter o surto.
"As projeções eram de que agora estaríamos em uma situação de guerra, mas devido a medidas tomadas por governos e comunidades, as taxas de transmissão são mais baixas do que as que já vimos em outros lugares."
Soy avalia que as restrições de movimento retardaram a propagação do vírus, mas as autoridades devem permanecer vigilantes, especialmente nas favelas da África.
"Eles têm alta densidade populacional e serviços de saúde muito ruins. Algumas delas sequer têm acesso à água", diz a jornalista.
Soy destaca que a maioria de seus habitantes teriam problemas em permanecer confinados por um longo tempo, porque são trabalhadores informais que não conseguem comer se não saem para trabalhar.
Apesar da diversidade de opiniões e debates sobre por que a África resistiu melhor à pandemia de covid-19 que as outras regiões mais ricas em recursos, a grande maioria dos especialistas concorda que ainda é cedo para falar de uma "exceção africana".

https://www.bbc.com/portuguese/internacional-52626740?ocid=wsportuguese.chat-apps.in-app-msg.whatsapp.trial.link1_.auin

domingo, 17 de maio de 2020

Sobre a necessidade de governar com compaixão: para além do estado de emergência





100 intelectuais africanos (4 de Moçambique, nenhum de Angola) assinaram uma carta aberta aos líderes do continente, exortando-os a analisar criticamente a crise global causada pela pandemia do COVID-19 e a usar as lições da crise para estimular "mudanças radicais". A carta, assinada por acadêmicos, escritores e ativistas de todo o continente e da diáspora (* veja a lista nas notas de rodapé), faz um apelo à África para que tome seu destino de volta em suas mãos. Aqui está o texto completo da carta:

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As ameaças que pairam sobre o continente africano em relação à disseminação do COVID-19 exigem nossa atenção individual e coletiva. A situação é crítica. No entanto, não se trata de mitigar outra crise humanitária "africana", mas de difundir os efeitos potencialmente prejudiciais de um vírus que abalou a ordem global e questionou as bases de nossa convivência.

A pandemia de coronavírus mostra o que as classes médias prósperas das cidades africanas até agora se recusaram a enfrentar. Nos últimos dez anos, vários meios de comunicação, intelectuais, políticos e instituições financeiras internacionais se apegaram à idéia de uma África em movimento, da África como a nova fronteira da expansão capitalista; uma África a caminho de "emergir" com taxas de crescimento que são invejadas pelos países do norte.
Tal representação, repetida à vontade a ponto de se tornar uma verdade recebida, foi dilacerada por uma crise que não revelou inteiramente a extensão de seu potencial destrutivo. Ao mesmo tempo, qualquer perspectiva de multilateralismo inclusivo - ostensivamente mantida viva por anos de elaboração de tratados - é proibida.

A ordem global está se desintegrando diante de nossos olhos, dando lugar a uma briga geopolítica cruel. O novo contexto de guerra econômica de todos contra todos deixa de fora os países do Sul Global, por assim dizer, ociosos. Mais uma vez, somos lembrados de seu status perene na ordem mundial em formação: a de espectadores dóceis.

Como uma tempestade tectônica, a pandemia do COVID-19 ameaça destruir as fundações de estados e instituições cujas falhas profundas foram ignoradas por muito tempo. É impossível listá-las, basta mencionar subinvestimento crônico em saúde pública e pesquisa fundamental, realizações limitadas em auto-suficiência alimentar, má administração das finanças públicas, priorização de infra-estruturas rodoviárias e aeroportuárias em detrimento do bem-estar humano. ser.
Tudo isso foi, de fato, objeto de uma abundante pesquisa especializada, exceto que parece ter escapado à atenção nas esferas de governança do continente. A gestão da crise em curso constitui uma evidência flagrante dessa lacuna.

Sobre a necessidade de governar com compaixão

Adotando o modelo totalmente securitário de "contenção" dos países do norte - muitas vezes sem muita atenção a contextos específicos - muitos países africanos impuseram um bloqueio brutal a suas populações; aqui e ali, a violação das medidas de toque de recolher foi recebida com violência policial. Se essas medidas de contenção alcançaram o acordo de classes médias protegidas das condições de vida lotadas, com algumas possuindo a possibilidade de trabalhar em casa, elas se mostraram punitivas e perturbadoras para aqueles cuja sobrevivência depende de atividades informais.
Sejamos claros: não estamos defendendo uma escolha impossível entre segurança econômica e segurança da saúde, mas queremos insistir na necessidade de os governos africanos levarem em conta a precariedade crônica que caracteriza a maioria de suas populações. No entanto, como um continente familiarizado com surtos de pandemia, a África tem uma vantagem inicial na gestão de crises de saúde em larga escala. No entanto, deve se cingir à complacência.

Aqui e ali, as organizações da sociedade civil demonstraram enorme solidariedade e criatividade. No entanto, apesar do grande dinamismo de atores individuais, essas iniciativas não poderiam de forma alguma compensar o despreparo crônico e as deficiências estruturais que os próprios estados terão que atenuar. Em vez de ficar ocioso e esperar por uma fortuna melhor, devemos nos esforçar para repensar a base de nosso destino comum a partir de nosso próprio contexto histórico e social específico e dos recursos que temos.
Nossa crença é que "emergência" não pode e não deve constituir um modo de governança. Em vez disso, devemos ser capturados pela real urgência, que é reformar as políticas públicas, fazê-las trabalhar em favor das populações africanas e de acordo com as prioridades africanas. Em suma, é imperativo expor o valor de todo ser humano, independentemente do status, além de qualquer lógica de lucro, dominação ou captura de poder.

Além do estado de emergência

Os líderes africanos podem e devem propor às suas sociedades uma nova idéia política da África. Pois esta é uma questão de sobrevivência, fundamentalmente, e não uma questão de florescimento retórico. São necessárias sérias reflexões sobre o funcionamento das instituições estatais, sobre a função de um estado e o lugar das normas jurídicas na distribuição e no equilíbrio de poder.

Isso é melhor alcançado com base em idéias adaptadas às realidades do continente. A realização da segunda onda de nossa independência política dependerá da criatividade política e de nossa capacidade de assumir o controle de nosso destino comum. Mais uma vez, vários esforços isolados já estão dando frutos. Eles merecem ser ouvidos, debatidos e amplamente incentivados.
Além disso, o pan-africanismo também precisa de uma nova vida. Ele deve ser reconciliado com sua inspiração original após décadas de deficiências. Se o progresso na integração continental foi lento, o motivo tem muito a ver com uma orientação informada pela ortodoxia do liberalismo de mercado.

Em conseqüência, a pandemia de coronavírus revela o déficit de uma resposta coletiva continental, tanto na saúde quanto em outros setores. Mais do que nunca, exortamos os líderes a ponderar a necessidade de adotar uma abordagem concertada dos setores de governança relacionados à saúde pública, pesquisa fundamental em todas as disciplinas e políticas públicas. Na mesma linha, a saúde deve ser concebida como bem público essencial, o status dos profissionais de saúde precisa ser aprimorado, a infraestrutura hospitalar precisa ser atualizada para um nível que permita que todos, inclusive os próprios líderes, recebam tratamento adequado na África. A falha na implementação dessas reformas seria cataclísmica.

Esta carta é um pequeno lembrete, uma reiteração do óbvio: que o continente africano deve ter seu destino de volta em suas próprias mãos. Pois é nos momentos mais difíceis que devem ser exploradas orientações novas / inovadoras e adotadas soluções duradouras.
A presente carta é dirigida a líderes de todas as esferas da vida; ao povo da África e a todos aqueles que estão empenhados em repensar o continente. Convidamos eles a aproveitar a oportunidade da crise do coronavírus para unir esforços para repensar um estado africano a serviço do bem-estar de seu povo, para romper com um modelo de desenvolvimento baseado no ciclo vicioso de endividamento, para romper com o visão ortodoxa de crescimento por causa do crescimento e de lucro por causa do lucro.

O desafio para a África não é menos do que restaurar a liberdade intelectual e a capacidade de criar - sem a qual nenhuma soberania é concebível. É romper com a terceirização de nossas prerrogativas soberanas, reconectar-se às configurações locais, romper com imitações estéreis, adaptar ciência, tecnologia e pesquisa ao nosso contexto, elaborar instituições com base em nossas especificidades e recursos, adotar uma estrutura de governança inclusiva e desenvolvimento endógeno, para criar valor na África, a fim de reduzir nossa dependência sistêmica.

Mais crucialmente, é essencial lembrar que a África tem recursos materiais e humanos suficientes para construir uma prosperidade compartilhada em uma base igualitária e no que diz respeito à dignidade de todos e de todos. A escassez de vontade política e as práticas extrativistas de atores externos não podem mais ser usadas como desculpa para a inação.

Não temos mais escolha: precisamos de uma mudança radical de direção. Agora é a hora!
https://www.theafricancourier.de/africa/covid-19-open-letter-from-african-intellectuals-to-africas-leaders/